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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Tabernas Não Existem Mais


Tabernas já não existem mais...
essas cavernas acolhedoras e sensuais
regadas de muito vinhos e desejos,
alardeados aos quatro cantos
ou confidenciais ao pé de ouvido
de quem já duvido que possa entender
a avalanche de palavrasque formam frases
já transtornadas pela inevitável embriagues.
Confesso eu sou antigo freguês
que jamais conseguirá pagar pelo o que seu olhar me fez:
ele trouxe tantos sonhos
tanta paz em minha taça de cristal,
onde destilo a minha rara lucidez...
Tabernas já não existem mais...
Por isso hoje durmo ao relento,
sentindo o frio em toda a sua rispidez
sem ter algo para me cobrir e me aquecer;
eu lembro de você,
quando, nas ruas, deixo verter
a lembrança da tua ardente nudez...
Tabernas já não existem mais...
o clima medieval se evaporou no tempo...
a rolha da garrafa do gênio se desgarrou
e deixou escapar todo o encanto..
eu me lembro como se fosse ontem,
quando entrei pela ultima vez
por uma delas com suas portas róseas...
Muita música...um frenético piano..
.poetas declamando os seus versos dispersos,
vagabundos compartilhando seus ócios,
mulheres da vida...mulheres comportadas...
que desejaram fugir da asfixiante rotina...
Jarras e jarras de vinho sobre as mesas
para celebrar o ritmo inebriante da vida...
circundadas de cadeiras que se esgueiram
para segurar a euforia ou a extrema melancolia
das pessoas, das vestes, disfarces e trapos humanos
escorrendo como uma ininterrupta fonte...
Via Toulosse Lautrec se embriagando em cores
para pintar os mistérios da Noite...
Eu via e ouvia Chet Baker, empunhando o seu trompete,
para interpretar a sua alma-o lado romântico e o lado cafajeste
o medo da vida e a coragem do suicídio...
Via também Bob Dylan sentar sobre a cadeira
e tirar delicadamente as botas empoeiradas
por um longo caminho e produtivo dia
que lhe renderam maravilhosos versos,
destilados em sua garganta e em sua gaita
que jamais se cansa de explorar os sons do Universo...
Tabernas já não existem mais...
e agora onde vou me recolher, me reconfortar...
Não vou poder mais ouvir Ana Cristina Cesar
declamar os seus versos suicidas...
Não vou mais poder ver a jovem Keidy
de cabelos e versos rebeldes,
de olhos virtuais,mas com um brilho tão nítido...
como eu vou fazer se tabernas já não existem mais...
se a Lei Seca foi reimplantada...
se da minha gang sobrou apenas a fama,
por onde passaram ,com seus surrados jeans e deslizantes tênis:
James Dean, Paulo Leminsky, Ferreira Gullar
com os seus poemas sujos,
mas sempre transparentes...
e tantos outros camaradas...
Tabernas já não existem mais...
só resta o gosto seco na boca...
a lâmina do punhal na garganta...
para nos devorar!

Carlos Gutierrez

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